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Blog de Campo de Trigo Com Corvos (Livro de Contos de Silas Correa Leite)
 


Anti-Crônica de Natal 2012

 

PERFILADOS

 

 

"Escuta este grande segredo:
Quando a primeira aurora iluminou o Mundo,
Adão já não era mais que uma criatura dolorida
que invocava a noite e a morte."
...................................................
Forcejo por aceitar,

Sem cólera nem espanto,
O que a vida me oferece.

E quando me for embora,
Partirei sem indagar
Explicação desta minha
Estranha estada na Terra."

 

OMAR KHAYYAM

 

 

Sim, irmãos... todos... um dia estaremos perfilados... um ao lado do outro, os menores à frente – menores em todos os sentidos – prontos para  a (o) data-julgamento final. Nós estaremos lá. Não chore. É inevitável. Eu, tu, nós, vozes, eles, Elis, todos. Sim irmãos, Elvis também, Elvis não morreu, ele estará lá, vendo o dono da estrela de fogo, a estrela da vida, a estrela da morte. Já pensou? Seremos todos julgados. Pelo que fizemos, pelo que não fizemos. Viemos do sangue de nossa mãe que nos pariu; a natureza-mãe e seu gerente operacional auditando bolsas e valores. Ninguém escapará. Defesa? Nossa vida-livro. Acusação? Estivemos presentes em cada momento de nossas vidas. Somos a maior testemunha de acusação e de defesa contra e a favor de nós mesmos. Não podemos jamais fugir do lugar que estamos, do lugar que somos, do lugar que percorremos, estrada e trilhas. Ele não viu? Você viu. Você fez escondido? Deus sabe. Você sabe! E você mesmo sabe muito mais sobre você do que ninguém. Não pode negar o que foi, o que fez, o que é. Já pensou nisso? P E R F I L A D O S!.

 

O amargedom datado? Pode ser. O que você fez pra si mesmo, pro seu pai, seu filho, seu amor, seu inimigo. Todos ali perante a voz do trono. O cavalo amarelo com a espada de luzes e cruzes na mão direita. Na mão esquerda o silêncio instaurado. Você e a expectativa de. Ao seu lado direito, seu anjo-da-guarda. Ao seu lado esquerdo, a legião de inimigos em mentiras que plantou. O roubo. A mentira. A morte. A traição. O anjo mau, guardião do inferno. Pesado foste na balança e achado em falta: estará escrito no portal de fogo. Todos ali. Os que foram antes, o foram depois de você, ancestrais e descendentes. Você verá seu avô, seu sobrinho-bisneto. Todos. O encontro: e perfilados. A mãe de volta. O pai inteiro. O filho que abortou crescido nas sombras, pelo seu voto de escuridão. Se você matou alguém, ele estará no sequencial à sua frente. E acusará. Olho no olho. Dente por dentro. Dará testemunho no estertor do horror. E você perfilado. Não haverá mais fuga. Não haverá mais insinuação. Nada será insinuado, nem acrescentado. O espelho do tempo rangerá. Nem santo, nem reza, nem perdão. A fé remove religião. Todos serão humilhados em Deus, e projetados na vida-obra. Cada um de si em si. Rangerão os monstros, ratos e demônios. Os gárgulas. E você protegido e sustentado pelo que fez. E você destruído pelo que dissimulou... Escondeu, mentiu, traiu: a cobrança como fogo e ranger de dentes.

 

PERFILADOS:  Todos são avisados da morte. Pelo menos os puros são. Os que não se enxergam, como enxergarão os sinais das iluminuras? Os sujos se sujarão ainda mais. Só as nossas obras nos libertam de nós. O bem, o afeto, a verdade, o desapego, a caridade. O amor é a mão que balança o berço da civilização? Perfilados, todos os nossos lixos pairarão sobre nós. Desde quando nascemos, a nosso infinita produção pessoal. O bem que fizermos iluminarão nossas frontes. Escolheremos nossos iguais. A serpente de três cabeças rondará o batalhão dos Recolhimentos. O que foi imprestável em nós, nos será tirado. O que foi construtor em nós, nos será dado como libertação. Será acrescentado como crédito espiritual. Línguas, mãos, olhos, sexos, membros, corações, malignidades; tudo saltará aos olhos. Então o incompreensível se revelará. Um véu nos será tirado. Nossa máscara cairá. Então era assim que funcionava o sistema todo? Era tão óbvio que não víamos com nossos olhos de pecadores? Então o retorno foi plantado por nós em nós? Silêncio sepulcral. Sob o céu cor de chocolate pesando chumbo, raios e trovões. Perfilados aguardaremos. O selo. A marcação no espírito. A testa o nosso testemunho-vida-livro. O medo esconderá seu nome. O medo da besta? Nosso medo cheirará longe. Teremos medo do cheiro de nosso medo... Deus perdoa mas não retira a culpa. A morte é para todos, mas a morte da morte só para especiais. Que lastro somos, fomos, construímos? Santo Deus!.

 

PERFILADOS. TIVEMOS TUDO E NÃO TIVEMOS NADA. Fizemos tudo e não nos preservamos nada. Fomos nada e queremos ser o que não fomos. Não haverá mais o tambor do tempo. Coração parado e alma pronta pro alvo. Os olhos da inveja. O coração de palha. A oração de vinagre. O corpo profanado. A idolatria satanizada na desculpa de veneração. Perfilados lado a lado, milhares, zilhões, e nos sentiremos órfãos, viúvos, sozinhos, abandonados pelo nosso ego, por nós mesmos, nossas próprias culpas se cumprirão.  Nossos grilhões? Nossas escuridões íntimas. Muitos chamados e poucos passarão no buraco da agulha. Ai de ti, mentira deslavada. Que futuro será o câncer, a dor, o acidente, a mágoa criada para o devir? Teremos vergonha de nos olharmos no espelho. O nome de cada um será chamado. Um passinho a frente... E a sentença se ouvirá, retumbante nos ares. Você foi condenado a voltar. Você repetiu de ano, repetiu de vida, repetiu de você? Perdeu pra você mesmo?

 

Irmão contra irmão. Pai contra filho. Marido contra mulher. Feto no esconderijo da memória. Roubo revelado. Culpa no cartório do céu. Ninguém escapa de ter sido o que é. A solidão será o jugo de um preço. A morte a sentença. A morte eterna.

 

Arquivos-vidas. A morte-cura. Só nos livraremos de nós no fogo? Ai de ti Ser Humanus. PERFILADOS. Não nos reconheceremos em nós. Desabaremos em corpo, alma, mente e espírito. Seremos pegos no ato de viver. Estupefatos contemplaremos o pergaminho de nossas vidas. Estará tudo lá, gravado, na placa-mãe do santuário. Range a rede cósmica. Anjos ajoelhados perante o trono, respirarão a justiça divina. E nós, perfilados. À que exército pertenceremos? Do surf? Da quadrilha do destempero sócio-hipócrita com infovias efêmeras? Do lucro-fóssil? De uma nova Atlântida, um novo céu e uma nova guelra? O julgamento do juízo final, como um stop coletivo. Pagamos pra viver. Parados no pântano da condição humana. Não soarão sinos. Nem hinos. As trombetas anunciação o grande juiz, sentado à direita do Deus-Pai. E a nave sol recuará no céu; escombros. As estrelas verterão lágrimas de sangue. O presépio, o gólgota, o calvário, tudo somado ali: somos a nossa própria escolha, livre arbítrio, pelotão de julgamento... pelotão de isolamento... cerca e muro, olho crítico e olho cínico. Paredes e cantagonias. Os lobos vestidos de cordeiros. Então o que fomos de verdade nos revelará. Teremos medo de nós?

 

E o milagre? E a salvação? E todos os falsos santos? Debaixo do céu tudo é vaidade. E a santa madre igreja... O nojo da Inquisição historial. E as rezas brabas? E os mitos dos cafundós do judas? Chegou a sua hora. Chegou a sua vez. Dê um passo a frente e ofereça a cabeça, pois que a própria sentença em fogo te consumirá, revelado o teu verdadeiro EU...

 

Martelos de foto no peito. Passos nos ares. Pegadas no céu. Os que te amaram e mereceram o que deram e fizeram, serão tirados de ti. Teu sangue será apartado de ti. Nunca mais lembrarás o sorriso de tua mãe. Um corvo cego gritará a reafirmação de teu destino algoz: Nunca Mais, Nunca Mais, Nunca Mais!-

 

Você acredita em mula-sem-cabeça? Que os dinossauros podem voltar voando? Em cegonha, pílula da felicidade? Em Papai Noel? A Bárbie entre a barbárie. Então Feliz Natal. Mas nunca se esqueça de que a tal verdade do chamado final feliz é que todos morrem no final.

 

Cuide bem de seu amor!

 

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Silas Correa Leite

E-mail: poesilas@terra.com.br

www.portas-lapsos.zip.net



Escrito por zanzes às 12h28
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