Declamar Poemas
Não gosto de decorar poemas Prefiro falar poemas com um livro na mão O livro é meu instrumento musical. (Solivan Brugnara)
Para Regina Benitez
Não fui feito para declamar poemas Ter timbre, empostar a voz, tempo cênico E ainda dar tom gutural em tristices letrais.
Não fui feito para decorar poemas Malemal os crio e os pincho fora Pro poema saber mesmo quem é que manda.
Não fui feito para teatralizar poemas Mal os entalho e deixo que singrem Horizontes nunca dantes naves/gados.
Não fui feito para perolizar poemas Borboletas são pastos de pássaros Assim os poemas que se caibam crusoés.
Não fui feito para ser dono de poemas Eles que se toquem e se materializem Peles de pedras permitem leituras lacrimais.
Não fui feito nem para fazer poemas Por isso nem cheira e nem freud a olaria Apenas uso estoque de presenças jugulares.
Não fui feito eu mesmo. Sou poema Bípele, cervejólo, bebemoro noiteadeiros Quando ovulo sou fio-terra em alma nau. -0- Silas Correa Leite, Itararé-SP E-mail: poesilas@terra.com.br
Escrito por zanzes às 13h18
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Microconto Cápsula Mãe “Temos que inventar uma ordem que permita a respiração no caos” Inês Pedrosa, in, Os Íntimos Tirei o chip neural de trás da orelha direita à faca. Foi no muque mesmo, a dor terminal. Quase que não consegui. Sangrei todo, mas a partir desse rompimento, caiu a conexão. Eles não podiam mais fazer nada. Assim também não me escutarão inutilmente pedir socorro. Tampouco obedecerei à regra impositiva do sistema de ter que sobreviver, mesmo aleijado por dentro. Estou no piloto automático. É questão de tempo e serei lançado no inferno da vida lá fora, para sempre. E, pior, certamente muito pior, tentarão de reconhecer e identificar como um reles humanus. Com o qual eu terei a eternidade inteira de castigo para, insana e hipocritamente me parecer com um. -0- Silas Correa Leite, Santa Itararé das Letras, SP Textículo da Série “Eram os Itarareenses Extraterrestres?” Autor de CAMPO DE TRIGO COM CORVOS, Contos, Editora Design, SC E-mail: poesilas@terra.com.br Blogue: www.portas-lapsos.zip.net
Escrito por zanzes às 10h46
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Versículos Insurgentes – Silas Correa Leite “Armai vos uns aos outros” Pichado num muro do Carandiru 01)-Meus melhores heróis morreram quando tiraram a rede de proteção. 02)-Desde que nasceu, as nuvens nos olhos. Quando estava para morrer, sarou. E viu a liberdade e a completude no devir da morte como libertação. 03)-Por engano acionou o alarme de incêndio. Quando os homens de fogo chegaram, era tarde demais. Ele já tinha urinado na calça. 04)-Era apaixonado pela mãe de seu melhor amigo. Uma cavala, dizia. Mas era pouco pasto pra ela. Hoje vive de migalhas da ração de olhares suspeitos que ela decrépita lhe dá. 05)-Fez a fama e deitou na cama. Até que um traído o achou de ressaca. E ele ganhou de presente uma silenciosa bala perdida. 06)-Os loucos o distinguiam na multidão. Ele tem consciência que frequentavam o mesmo diapasão. Só que fingia bem que era normal. Era poeta concretista. 07)-Quando finalmente vieram resgatar o corpo no desfiladeiro, ele já estava subindo de novo com asas próprias. 08)-Sabia com certeza que tinha morrido. Só não sabia o que estava fazendo ali. E aquele maldito questionário para ser preenchido que nunca terminava. 09)-De alguma maneira, mamara na mãe até não poder mais. Se pudesse mamaria a vida inteira. Na verdade, ainda acha que está mamando até hoje, quase cinqüenta anos depois de órfão dela. 10)-O interior não é só o longe da capital. É sim, também e por isso mesmo, a própria qualidade do interior das pessoas. 11)-Era apaixonada pela bela morena cega que vende flores no farol da Consolação. Não se enxerga. 12)-Desde que nasceu, toda a família sabia que ele tinha uma espécie de mapa de tesouro pirata desenhada no dorso. 13)-Era castigo ler. Ele pintava e bordava, e o pai marrudo tascava a Bíblia, dicionário, Érico ou Pessoa. Hoje é escritor maldito. Impublicável e inédito. De castigo 14)-Morrer é só não ser lido. 15)-Descobriu o segredo sexual de seu vizinho, policial aposentado da federal. Mas não podia contar para ninguem. Ou seria apagado da existência com um verdadeiro crime perfeito. 16)-Queria ser desenhista. Queria ser pintor. Mas tomava todas e mais algumas. Hoje ainda pinta em faróis. Catando latinhas para sobreviver. 17)-Guri de tudo, trabalhava em clandestinos fornos carvoeiros. Na meia idade e já bem velho e acabado por isso mesmo, pegou uma cor que deu lhe uma epidérmica doença fatal. 18)-Apaixonou-se loucamente pela mulher do matador de aluguel das quebradas do Paraísópolis. Sabe que será para sempre secreta paixão impossível, para não dar com os burros nágua. Quando encontra o Cara que manda nas paradas, ainda acena e, sorrindo pergunta: -O que é que tá pegando? Ao que o sujeito rei da cocada preta, dono do pedaço, retruca en passant um inquerer: -Tô dentro! 19)-Matou o pai, a mãe e as seis irmãs. Aos poucos, a prestação. Silenciosamente como um rato. Ninguém nunca descobriu nada. Agora, na sua ilha de edição, tenta forjar atestados para receber seguros de vidas. 20)-Surdo e mudo, sozinho aprendeu a cantar mentalmente, suas próprias canções. Quem o vê assim sorrindo, não sabe nada de si. -0- Silas Correa Leite E-mail: poesilas@terra.com.br www.portas-lapsos.zip.net
Escrito por zanzes às 10h56
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