A CAATINGA Ernane N.A.Gusmão ATO 1-A SÊCA Parda Caatinga,silencia triste /esturricada sob o céu de agosto. O facheiro,erguendo-se em riste,/qual sertanejo que escancara o rosto, Denuncia a heróica resistência/ das plantas”machas” lá do meu sertão Que secam,e morrem só na aparência/ pois na verdade nunca morrem não. Já não se ouve o cantar alegre,/ do canário,das pombas,do azulão. O longo estio,sem poder que o regre,/já vai rachando o ressequido chão./ É tudo cinza,rara folha verde/dos angicos,juremas e o teimar Da faveleira,que jamais se perde/nem se mistura no cinzento mar. O vento sopra,cisma o caatingueiro.../lá vem a chuva,não vai mais tardar. Imagina brotarem no imbuzeiro/os verdes frutos que aprendeu chupar. Enquanto ela não vem,faz romaria,/faz reza,procissão,promessas faz. Crente,sonhando,pensa o que faria/se o céu e a terra celebrassem a paz. ATO 2- A CHUVA E no ribombo do trovão,bem longe,/ouve a mensagem que esperança traz. Qual santa prece que acompanha o monge,/vem o estrondo,cai a chuva atrás Vertendo em cópia,farto,quente e doce,/Sacro dilúvio de maná e mel Como se Deus,onipotente fosse /vasando o piso do seu vasto céu. A água embebe ressecadas malhas,/penetra as fendas,cobre tudo em véu. Em breve,a secura dessas palhas /vai transformar-se em folgaz vergel. Despertam secas ramas hibernadas,/raízes múmias se espreguiçam enfim, Como se fossem formas encantadas /e ao brado VIDA!...respondessem SIM!... ATO 3-O MILAGRE O verde cobre a amplidão finita/com bordados de ouro e de carmim. O passaredo,álacre,recita /uma algazarra que não tem mais fim. Maracujás emitem mil gavinhas,/frutos dourados,o garapiá, As alvas bagas dessas nossas pinhas,/o que mais doce neste mundo há. Ressurge tudo,qual milagre a vida /dos jericós rebrota.Como está/ turgente a Caatinga colorida, /da quixabeira,cardos,sabiá!. Velames,macambiras,vão brotando,/as imburanas soltam seu verniz. Caatinga em festa,exala,perfumando/e os bichos,ébrios,vão pedindo-BIS!... Os gravatás relevam sobre os troncos / escamas de esmeraldas e rubis/ Enquanto os xique-xiques densos, broncos ,/ reentrelaçam o espinheiro em xis. E o caatingueiro, firme, tão sofrido, / louvando a terra que deixar não quis, Confirma-patriota empedernido -/- É na Caatinga que eu sou feliz!...
Escrito por zanzes às 13h46
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Nesta Hora Incerta... No barco de Sindbad, eu ouso, marinheiro!... O vento do deserto aquece e tumultua as águas azuladas. Sem velas e sem leme, as vagas alterosas, de medo e perdição a rota determinam. No tímido palor crepuscular, o sonho al Andalus resiste, no meu peito, ao medo e à perdição. Nesta hora incerta, apenas sou o alor alado de um destino. Chegar ou não chegar além do sonho, além do tempo que me é dado, é ser e despertar. Que eu seja quem plantou, agora, o damasqueiro! Que sejas tu, um dia, quem vai colher, maduros, os damascos... Autor: José-Augusto Carvalho, Portugal
Escrito por zanzes às 12h42
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Houve Um Tempo Houve um tempo em que eu precisei chorar E não sabia chorar E quando aprendi a chorar Não tinha ninguém ao meu lado Então eu escrevi poemas, esses poemas foram o meu pranto Por isso eu sobrevivi ao longo inverno das amoreiras secas. Houve um tempo em que eu pensei em me matar Mas não tive coragem Como no entanto eu tinha de me matar de alguma maneira Eu escrevi poemas como rios de lágrimas entre salinas E esses poemas como lágrimas de algum céu dentro de mim Lavaram minha alma, minhas mãos e meus olhos E então eu sobrevivi como um esquilo além da estação de caças E vi as primeiras amoreiras vermelhas no pincel do último horizonte Silas Correa Leite
Escrito por zanzes às 17h48
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