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Blog de Campo de Trigo Com Corvos (Livro de Contos de Silas Correa Leite)
 


Escrevo desde que aprendi a ler. Rabiscava em madeiras. Tive cachorro, árvore e nuvens. Na infância pobre conversava sozinho. Em casa era castigo ler dicionário. Fui um ledor voraz, criado entre mulheres. Tinha medo de morrer. Escrever me fez tentar a recriação de uma outra vida, deixar minha dor de existir no letral. Escrever é mais importante que viver. A minha alma-nau respira quando escrevo, assim me livro de mim. Escrevo muito, sobre tudo, o tempo todo. Escritor é um retratista. Registra as amarguras de seu tempo. Sinto a dor dos outros nos ombros. Trago a infância comigo. Levo Itararé por onde for, com suas ruas de cacau quebrado e pessoas. Crio personagens p/ povoar o mundo que recrio nos livros. Faço poesia p/ ter companhia. As pessoas riem muito comigo, como se eu tivesse um nariz vermelho de palhaço. O elogio que mais recebi foi Você não existe!. Faço as pessoas chorar com o que escrevo em verso e prosa. Quando eu morrer, espero poder vir a escrever no Céu. As nuvens, então, chorarão por mim.

 Silas Correa Leite, do orkut dele



Escrito por zanzes às 17h16
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Escrito por zanzes às 17h13
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Carta de Escritor Africano (Anônimo)



Meu irmão branco...
Quando eu nasci, eu era negro
Quando eu cresci, eu era negro
Quando eu vou ao sol, eu sou negro
Quando eu estou com frio, eu sou negro
Quando eu estou com medo, eu sou negro
Quando eu estou doente, eu sou negro
Quando eu morrer, eu serei negro

E Você Homem Branco...

Quando você nasceu, era rosa
Quando você cresceu, era branco.
Quando você vai ao sol, fica vermelho.
Quando você fica com frio, fica roxo.
Quando você está com medo, fica branco.
Quando você fica doente, fica verde.
Quando você morrer, ficará cinza.

Depois de tudo isso Homem Branco,
Você ainda tem o topete de me chamar de homem de cor?

 

-0-

 



Escrito por zanzes às 17h10
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A Lição do Lápis Com Borracha

 

Para Paulo Cesar de Castro, Porto Alegre-RS

 

 

Colhe as flores mas larga-as

Das mãos mal as olhaste

Senta-te ao sol. Abdica

E sê rei de ti próprio!

 

Fernando Pessoa

 

Lembra-te daqueles tempos, em que os lápis da marca Castelo

Vinham te permitir construir sonhos e escadas para o alto?

Desenhar era só deixar correr o traço, o risco, e tu ali, pueril

No Grupo Escolar colhia as primeiras letras, sons e palavras...

 

Lembra-te quando erravas, e a professora ensinava o certo

Que teu peito pueril medrado se afogava em floração de lágrimas?

Mas a mestra vinha e te tocava com um afeto cheio de graça

Que eras de novo um canteiro para muito bem ser semeado

 

Pois lembra-te ainda, quando escrevias as tortas vogais

Quando soletravas o caminho suave das primeiras aulas?

Então o pito da mestra, aqui e ali; pois quem ama corrige

E o pito-carito de um pirraceiro a rir de ti e das acontecências

 

Pois um dia a professora de olhar de cor do céu e mãos de anjo

Mostrou-te o outro lado do lápis: feito uma metáfora

A qualquer momento da vida, nas trilhas e nas vicissitudes

Poderias refaze o caminho, apagar, recomeçar, tentar de novo

 

Essa é a lição da vida, a Lição do Lápis com Borracha

Aprendemos; lucros e perdas, cantagonias e louvações

Mas há uma força que nos alerta, um mestre universal

Um anjo-da-guarda que volta de novo para nós e nos provê

 

Aprendeste assim a lição da primeira infância e refletes

Refazes os planos, ouve amigos, sonhas, labuta, espera

Tudo de novo, apagando desacertos e os erros das tentativas

Na sábia lição de tentar sempre para aprender técnicas de voos

 

Por onde fores, piá, guri, curumim, moleque, homem crescido

Longe de casa, mas dentro de ti - tua infância levas sempre contigo

Terás sempre a Lição do Lápis com Borracha para te fazeres vencedor

E dizer ao fim da jornada que erraste e acertaste no sudário das somas

 

Porque como o lápis veio da árvore e a borracha também

Geraste um livro, plantaste um filho, escreveste uma vida

Com a eterna lição de tentar, evoluir, mudar, acreditar sempre

Lição da mestra que te ensinou; que enfeitaste com lápis de cor

 

Da vida só levamos mesmo o amor e o humor que deixamos

E a saudade ainda é a maior e a mais pura forma de amor

Por isso continua seus traços, desenhos, escritas e livrações

Páginas de vida colorindo teu aprendizado de vitórias feitas a mão.

 

-0-

 

Silas Correa Leite – Estância Boêmia de Itararé, Santa Itararé das Letras

Especialista em Educação, Jornalista Comunitário, Conselheiro em Direitos Humanos

Site: www.itarare.com.br/silas.htm - E-mail: poesilas@terra.,com.br

Poema da Série “Eu Era Feliz e Sabia Que Era”, Livro inédito do Autor

Autor do livro “CAMPO DE TRIGO COM CORVOS”, Contos, Editora Design, Finalista do Prêmio Telecom, Portugal, à venda no site www.livrariacultura.com.br

Blogue premiado do UOL: www.portas-lapsos.zip.net

 

 

 



Escrito por zanzes às 17h09
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Molduras



 

















Sonhara ter,
refletida em explícitos espelhos,
vida burguesa
de pintura holandesa do século XVII

Tocou-lhe ser
simples Sísifa de si,
com rotina que ganhou, todavia, algum valor
quando perdida em frios dias de terror
como o
Jóquei perdido de Magritte se achou

Hoje palmeiras não mais a hasteiam
Resta o passeio guiado por certo sapato
de gáspea longa que cai como meia

Como um matiz de Matisse,
manter-se à superfície
é dom de jeunesse

- jamais de velhice,
turno de Turner,
pendor invisibilizador


Lu Menezes


Escrito por zanzes às 17h08
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de noites e dias, momentos...


O RIO RI, AS FLORES ADORAM

Porque ontem fui dormir com meus anjos
e hoje acordei no colo de Kafka,
ao menos por hoje,
não se haverá de mirar
os olhos opacos da impaciência.
E o dia fluirá sem sonolência,
como as águas de um rio
a caminho do mar,
brincando de esconde-esconde com peixes,
que passam, em cardumes,
fazendo-lhe cócegas na barriga;
os peixes saltam, o rio ri,
as águas pulam nas pedras,
as margens ficam excitadas.
O rio é contagiante,
gosta mesmo é de brincar,
brincaria com as borboletas
se elas soubessem nadar mas,
elas ainda não aprenderam,
se precisaria ensinar primeiro às flores.
Mas elas não desgrudam do chão,
a menos que eu as colha com as mãos.
Não.
Hoje não colherei flores,
Hoje colocarei um altar ao pé de cada uma delas.
Vou passar o dia assim,
de altar em altar,
a Te adorar
dentro de mim.

Smírama


by Carmen Regina



Escrito por zanzes às 17h04
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Pedras

ato VII - pedra utopia


“Coloquemos aquilo que é utopia, aquilo que é o conceito, não o coloquemos em lugar nenhum. Coloquemos no amanhã e no aqui.
Porque o amanhã é a única utopia”. - José Saramago


naquela manhã diferente
quebrou suas ferramentas
não foi trabalhar
não construiu mais castelos
para onda derrubar

rasgou a bíblia
esqueceu versículos
de louvor a deuses surdos
e subiu num caixote
no meio do canteiro central

berrou palavras de desordem
num discurso ao proletariado
relembrou o instinto animal
o não-consumismo
o sobreviver em pequena escala

incitou o caos e a guerra

indagava aos ouvintes
quantos mais de seus filhos inocentes
entregariam à Igreja
ou ao Estado?

contradisse sua utopia insana
que remendava o culto
de que tudo vai dar certo
e extirpou a descendência
do não-ser

num momento sentiu-se livre
e em outro se perguntava
a liberdade existe?



Escrito por zanzes às 14h02
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Não Tenho Descanso

 

 

imagem by Nicolas Roerich


"Não tenho descanso. Tenho sede de infinito.
Minha alma desfalecente aspira aos remotos desconhecidos.


Grande além!

Ah! o canto dolorido da tua flauta chamando!


Esqueço, esqueço sempre que não tenho asas para voar,
que vivo eternamente preso à terra.


A minha alma arde e o meu sono foge.
Sou um estrangeiro num país estranho.


Tu murmuras ao meu ouvido uma esperança impossível.
O meu coração conhece a tua voz como se fosse a sua própria voz.


Grande desconhecido!

Ah o canto dolorido da tua flauta chamando!


Esqueço, esqueço sempre que não tenho o corcel alado.
Não consigo encontrar o sossego,

sou um estrangeiro em meu próprio coração.


Nas brumas batidas de sol das horas lânguidas

que imensa visão de ti me aparece contra o azul do céu!


Grande irreconhecível!

Ah! o canto dolorido da tua flauta chamando!


Esqueço, esqueço sempre que na casa em que habito sozinho,
todas as grades estão fechadas."

Rabindranth Tagore





Escrito por zanzes às 13h51
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A Importância de Machado de Assis Um Século depois de Sua Morte

 

 

Machado de Assis é o melhor escritor brasileiro de todos os tempos. A qualidade literária, a lucidez fora de série e o talento foram confirmados com o passar dos anos. Ler Machado de Assis é ter orgulho de ser brasileiro. De origem humilde, paulatinamente foi criando o seu magnífico mundo letral espetacular, fundou a Academia de Letras, marcou a arte lítero-cultural brasileiríssima com a sua essência de vida e também com o próprio registro magistral de sua época, de seu tempo, incluindo as agruras sócio-culturais do período. Escrevia como quem punha a alma do Brasil para madurar, dando testemunho de si nos despojos, registrando com sapiência em tantos livros importantes o seu valor, a sua cultura, fazendo com que, cem anos depois, ainda o estejamos estudando, tenhamos orgulho dele, pois nunca mais haverá outro como Machado de Assis, se assim podemos dizer, o Número Um. No Brasil é lido entusiasticamente como nunca, seus textos caem em provas e vestibulares oficiais de renome, jovens universitários de gabarito descobrem e estudam a sua maestria com as palavras, a construção dos quadros narrativos, o estilo todo peculiar e inconfundível. Fora do Brasil é tido como um gênio, a altura dos grandes nomes da literatura mundial, até mesmo muitas vezes sendo cobrado porque não teria sido indicado para o Prêmio Nobel de Literatura. Romances que passam a limpo as mudanças que vivia o Brasil; tons irônicos, enfoques humanitários, sempre recuperando situações nodais, moldando palavras e criticando os contrastes sociais de sua época e outras, império, escravatura, sociedade. Documentou, historiou, decodificou o meio hipócrita e mostrou toda a sua verve e o depuro no oficio do qual era mestre. Técnica narrativa cativadora, surpreendente linguagem e abstração portentosa que fundava ali, a graceza cultural emergente no seu mais alto estilo e qualidade, revelando a tez chão de sua carreira até hoje inquestionável. A importância de Machado de Assis cem anos depois de sua morte é a própria prova de que ele foi muito além de seu tempo, apesar das agruras do que a vida lhe impôs, e que talvez por isso mesmo também em seu caráter fizeram-no forte, valorando sua ética como registro de um povo, de um tempo, de um lugar. Sem ele, a literatura brasileira não seria a mesma. A sua importância até hoje é o testemunho do que ele foi pioneiro na qualidade histórica de sua área, insubstituível e o próprio tempo, como juiz soberano o valora sobremaneira, colocando-o no patamar dos melhores do mundo. Marco histórico, portanto, Machado de Assis tornou-se referencial para autores que o sucederam no ramo literário, criou linhagem qualitativa, fez escola, é comparado e está acima de todos, sendo citado com probidade e garbo, servindo como acervo de pesquisas históricas acadêmicas até, pertinente ao seu momento literal (costumes, figurinos, crendices, visões do império, da escravatura, da abolição, da república), além de dar sustentação para teses sociológicas e ainda ser considerado o fundador do melhor quilate da arte narrativa brasileira. Quando queremos citar um cidadão humilde que brilhantemente venceu na vida com arrojo, o primeiro nome lembrado é Machado de Assis. A sua importância é que seus livros vendem, sua técnica narrativa densa atrai, os seus personagens cativam (como Capitu e Bentinho, por exemplo) e ainda, com profundidade, permite múltiplos entendimentos, fazendo-no um personagem de si mesmo, um mito. portanto.

-0-

 

Autor: Silas Correa Leite Origem:  Itararé-SP 

www.portas-lapsos.zip.net

 

E-mail: poesilas@terra.com.br



Escrito por zanzes às 01h36
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Soneto do Desmantelo Azul





















Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas,

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.

Carlos Pena Filho


Escrito por zanzes às 15h25
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paixão secreta



Acordei com os primeiros pássaros,
já minha lâmpada morria.
Fui até à janela aberta e sentei-me,
com uma grinalda fresca
nos cabelos desatados...
Ele vinha pelo caminho
na névoa cor de rosa da manhã.
Trazia ao pescoço
uma cadeia de pérolas
e o sol batia-lhe na fronte.
Parou à minha porta
e disse-me ansioso:
— Onde está ela?
Tive vergonha de lhe dizer:
— Sou eu, belo caminhante,
sou eu.

Anoitecia
e ainda não tinham acendido as luzes.
Eu atava o cabelo, desconsolada.
Ele chegava no seu carro
todo vermelho, aceso pelo sol poente.
Trazia o fato cheio de poeira.
Fervia a espuma
na boca anelante dos seus cavalos...
Desceu à minha porta
e disse-me com voz cansada:
— Onde está ela?
Tive vergonha de lhe dizer:
— Sou eu, fatigado caminhante,
sou eu.

Noite de Abril.
A lâmpada arde neste meu quarto
que a brisa do Sul
enche suavemente.
O papagaio palrador
dorme na sua gaiola.
O meu vestido é azul
como o pescoço dum pavão,
e o manto verde como a erva nova.
Sentada no chão, perto da janela,
olho a rua deserta ...
Passa a noite escura
e não me canso de cantar:
— Sou eu, caminhante sem esperança,
sou eu.

Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera"
Tradução de Manuel Simões

foto: corte dos meus olhos


Escrito por zanzes às 18h57
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