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Blog de Campo de Trigo Com Corvos (Livro de Contos de Silas Correa Leite)
 


ANTICABEÇA (II)

 

 

Lona podre, nacos de carne, torsos caindo; escuras mariposas (stukas) caindo; sirenes, uma canção.

Bater nos cornos do céu, capricórnio adoece em luzes de urina; olhos blindados; cano de fuzil apontado para a lua.

Esferas ou cilindros de cérberos; o aço grunhe; rajadas de agni; fogos-fátuos; bocas lanhadas por detritos.

Há um pássaro de três cabeças, e um só canto; uma jovem nua flutua no céu.

Emily pediu um livro (borboleta voando) de gravuras coloridas (sonhada por um chinês), com capa veludosa (desejada por um gato) e marcador de páginas (com bigodes de mandarim).

Ela, que ama peônias, biombos, nanquins, e sonha ser enfermeira num grande hospital em Berlim.

Ela, que ama o verde mar de gaivotas, e a prata que cintila nas peças do aparelho de chá.

Isso foi há quanto tempo? Havia um piano de cauda e lenços brancos, pedaços de carneiro e o pôr-do-sol.

Agora, só há o verde-prata, ou verde-escuro, verde-panther; na boca do dragão.

(Como um livro) (de figuras) (metálicas;) (imagens) (d’esqueletos) (turvos;) (surdos) (espectros) (em sarabanda,) (invernal.)

Palavras zumbem na mente; difícil caminhar com o peso do mundo. Este é um tempo sombrio, tempo da impureza, do branco mesclado ao amarelo.

Lao Tzu rumou para o Sul, montado num touro, búfalo ou grou. O guarda da fronteira pediu-lhe sua inútil sabedoria.

 

(Poema do livro Fera Bifronte, de Claudio Daniel. Bauru: Lumme Editor, 2009)

 



Escrito por zanzes às 19h58
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Macaquice

 

O pai quis comprar um macaco

Para criar em casa, conosco, comigo

Desde logo paguei um mico

Contrário que fui a essa empreita

 

Vi o macaco para ser vendido

Numa gaiola atulhada de cascas

O nome do bicho era Belchior

Como o mal-tratava um cigano

 

Reinei, pus desconfio, o pai

Então não comprou o animal

(Por medo do bicho nos domar

Fui contra e segurei coleira)

 

O pai em casa depois brincava

Que eu era serelepe, como um sagüí

Riram muito – para que outro

Se sempre tive minha própria jaula?

 

Silas Correa Leite

Email: poesilas@terra.com.br

Blogue: www.portas-lapsos.zip.net



Escrito por zanzes às 12h05
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Para Onde Vão os Poetas Quando Morrem Cedo

 

Para Rodrigo de Souza Leão, In Memoriam

 

“Começar o escrever era descrever/

Descrever era desmanchar o que está escrito/

O que estava à vista parado/

No pensamento, no jardim/

E reescrever, de outra forma/

Em outra fôrma/

O novo curso e rasgo./

Escrever é desespera e espera...”/

 

Armando Freitas Filho

In, Lar, Poemas, Companhia das Letras

 

 

 

Para onde vão os poetas quando morrem jovens?

Para uma Terra do Nunca muito além de Pasárgada?

Para uma Shangri-lá das esferas letrais

Um desmundo na órbita das sensibilidades apuradas?

Para uma cidade fantasmas de sígnicos humanos

Em que há uma toda nova preparação para um revisitar-se?

 

Para onde vão os poetas quando morrem cedo?

O que é cedo ou tarde para o macadame das almas literais

E o espírito dos atribulados no caos telúrico

Entre o esquizofrêmito de criar um novo céu e uma nova guelra

Porque a insatisfação generalizada reina e viça

Nas infovias efêmeras que disparam solidões em concreto

Tirando impurezas do teclado e rangendo o rancor além da rede?

 

Para onde vão os poetas quando piram letras

Ferindo-se para escreverem com sangue dívidas e dúvidas

Muito além das cantagonias urbanas e das saciedades liriais

Quando tudo é só um grito de horror e os sonhadores sofrem

Como zumbis numa sociedade bizarra de bezerros com chips

Mais os sem-nome, sem-terra, sem-teto, sem saída, sem amor?

 

Para onde vão os poetas que se escrevem em dolorosos banzos-blues

E disparam torpedos de uma geração-teflon entre placas-mães

Tentando recuperar estimas que são lágrimas a seco

Num Brasil Sociedade Anônima em que a cultura é nicho

De neomalditos, de excluidos da mídia, de sonhadores sem grife?

Porque escrever é resistir; é dar forma a uma não-formalidade

Como se cada um gritasse seu grito individual, solitário, feito um indigente

Que procurasse pólvora na poesia, fósforo na fé, carbono nas tintas íntimas

Tentando refazer o próprio mundo muito além das placas de captura

E onde a própria realização é morrer para dar-se a ouvir como um eco num abismo?

 

...............................................................................................................

 

Para onde vão os poetas quando jovens e quando e morrem cedo?

Talvez um silêncio explique a perda, o vazio, a dor de existir

Entre regras falsas, deturpações sociais, tristes vazios culturais

Porque a morte é um protesto, uma fuga, o mais triste poema que existe

E sendo a saudade a mais pura forma de amor que resiste também é

Um grito contra as dilacerações transformadas em linguagens contra a própria indiferença...

 

-0-

 

Silas Correa Leite, Itararé-SP

E-mail: poesilas@terra.com.br

www.portas-lapsos.zip.net

Autor de O HOMEM QUE VIROU CERVEJA, Crônicas, no prelo, Giz Editorial, SP

 

 

 



Escrito por zanzes às 18h05
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Programa número 421

Muito descontraído, Tuca Andrada vem ao Provocações para contar um pouco sobre sua carreira, nos palcos, nas telinhas e telonas, seus pensamentos e sobre a vida.

Nosso convidado saiu do Recife aos 21 anos já pensando em brilhar como ator. Muito modesto, não se acha totalmente consagrado, diz que ainda tem muito para aprender.
Como a maioria dos atores multimídia, ele prefere muito mais o teatro à outras mídias, segundo ele, quando está no palco, entra em transe e se sente em um templo onde ele mesmo se encontra e encontra o público. Mesmo fazendo muita televisão, nos confessa que poucas vezes a TV o deixa contente.
Não sabe definir o que o teatro representa para ele, mas solta uma frase muito interessante: "Meu trabalho se desmancha no ar quando eu saio do palco."

Como um bom pernambucano, suas influências são totalmente nordestinas, mas é apaixonado pelo público do sudeste. Adora a fidelidade do público paulista e acha muito necessário a crítica dos cariocas.

Uma de suas consagrações no teatro foi vivendo o personagem de Orlando Silva, o cantor das multidões. Segundo Tuca, este cantor definiu o canto moderno no Brasil, e mesmo o artista homenageado sendo tão importante, diz que não foi nada fácil produzir a peça.

Tuca Andrada conta ainda muitas histórias sobre a vida e a carreira, confiram no próximo Provocações.


Convidados:

Tuca Andrada [ saiba mais ]
Ator


Vozes das ruas:

Vale comer de tudo para sobreviver!

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Textos e Poesias:
- Silas Correa Leite
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Escrito por zanzes às 11h21
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