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Blog de Campo de Trigo Com Corvos (Livro de Contos de Silas Correa Leite)
 


Para Onde Vão os Poetas Quando Morrem Cedo

 

Para Rodrigo de Souza Leão, In Memoriam

 

“Começar o escrever era descrever/

Descrever era desmanchar o que está escrito/

O que estava à vista parado/

No pensamento, no jardim/

E reescrever, de outra forma/

Em outra fôrma/

O novo curso e rasgo./

Escrever é desespera e espera...”/

 

Armando Freitas Filho

In, Lar, Poemas, Companhia das Letras

 

 

 

Para onde vão os poetas quando morrem jovens?

Para uma Terra do Nunca muito além de Pasárgada?

Para uma Shangri-lá das esferas letrais

Um desmundo na órbita das sensibilidades apuradas?

Para uma cidade fantasmas de sígnicos humanos

Em que há uma toda nova preparação para um revisitar-se?

 

Para onde vão os poetas quando morrem cedo?

O que é cedo ou tarde para o macadame das almas literais

E o espírito dos atribulados no caos telúrico

Entre o esquizofrêmito de criar um novo céu e uma nova guelra

Porque a insatisfação generalizada reina e viça

Nas infovias efêmeras que disparam solidões em concreto

Tirando impurezas do teclado e rangendo o rancor além da rede?

 

Para onde vão os poetas quando piram letras

Ferindo-se para escreverem com sangue dívidas e dúvidas

Muito além das cantagonias urbanas e das saciedades liriais

Quando tudo é só um grito de horror e os sonhadores sofrem

Como zumbis numa sociedade bizarra de bezerros com chips

Mais os sem-nome, sem-terra, sem-teto, sem saída, sem amor?

 

Para onde vão os poetas que se escrevem em dolorosos banzos-blues

E disparam torpedos de uma geração-teflon entre placas-mães

Tentando recuperar estimas que são lágrimas a seco

Num Brasil Sociedade Anônima em que a cultura é nicho

De neomalditos, de excluidos da mídia, de sonhadores sem grife?

Porque escrever é resistir; é dar forma a uma não-formalidade

Como se cada um gritasse seu grito individual, solitário, feito um indigente

Que procurasse pólvora na poesia, fósforo na fé, carbono nas tintas íntimas

Tentando refazer o próprio mundo muito além das placas de captura

E onde a própria realização é morrer para dar-se a ouvir como um eco num abismo?

 

...............................................................................................................

 

Para onde vão os poetas quando jovens e quando e morrem cedo?

Talvez um silêncio explique a perda, o vazio, a dor de existir

Entre regras falsas, deturpações sociais, tristes vazios culturais

Porque a morte é um protesto, uma fuga, o mais triste poema que existe

E sendo a saudade a mais pura forma de amor que resiste também é

Um grito contra as dilacerações transformadas em linguagens contra a própria indiferença...

 

-0-

 

Silas Correa Leite, Itararé-SP

E-mail: poesilas@terra.com.br

www.portas-lapsos.zip.net

Autor de O HOMEM QUE VIROU CERVEJA, Crônicas, no prelo, Giz Editorial, SP

 

 

 



Escrito por zanzes às 18h05
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Programa número 421

Muito descontraído, Tuca Andrada vem ao Provocações para contar um pouco sobre sua carreira, nos palcos, nas telinhas e telonas, seus pensamentos e sobre a vida.

Nosso convidado saiu do Recife aos 21 anos já pensando em brilhar como ator. Muito modesto, não se acha totalmente consagrado, diz que ainda tem muito para aprender.
Como a maioria dos atores multimídia, ele prefere muito mais o teatro à outras mídias, segundo ele, quando está no palco, entra em transe e se sente em um templo onde ele mesmo se encontra e encontra o público. Mesmo fazendo muita televisão, nos confessa que poucas vezes a TV o deixa contente.
Não sabe definir o que o teatro representa para ele, mas solta uma frase muito interessante: "Meu trabalho se desmancha no ar quando eu saio do palco."

Como um bom pernambucano, suas influências são totalmente nordestinas, mas é apaixonado pelo público do sudeste. Adora a fidelidade do público paulista e acha muito necessário a crítica dos cariocas.

Uma de suas consagrações no teatro foi vivendo o personagem de Orlando Silva, o cantor das multidões. Segundo Tuca, este cantor definiu o canto moderno no Brasil, e mesmo o artista homenageado sendo tão importante, diz que não foi nada fácil produzir a peça.

Tuca Andrada conta ainda muitas histórias sobre a vida e a carreira, confiram no próximo Provocações.


Convidados:

Tuca Andrada [ saiba mais ]
Ator


Vozes das ruas:

Vale comer de tudo para sobreviver!

[Assista ao vídeo]
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Textos e Poesias:
- Silas Correa Leite
[ leia e ouça ]


© 1996-2009 Fundação Padre Anchieta

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Escrito por zanzes às 11h21
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Adeus, Amigo Rodrigo de Souza Leão



Por Claudio Daniel (Do site Cronópios)



                                                                                               Rodrigo de Souza Leão


Conheci o Rodrigo há uns dez anos.

Hoje, soube que ele foi embora. Recebi a notícia como um soco a nocaute.

Não sei o que dizer.

O que escrevo aqui é menos uma crônica do que um desabafo.

Rodrigo foi um poeta visceral; ele não buscava apenas soluções estéticas. A criação, para ele, era uma forma de iluminar o próprio caos.

Ele escrevia com as entranhas.

Poesia confessional? Sim. Apesar disso, deixou obras notáveis, como a novela Todos os cachorros são azuis e o livro de poemas O caga-regras.

Há muitos livros inéditos também, que ele guardou nas gavetas ou publicou na forma de e-books, como Impressões sob pressão alta, 25 tábuas, No lioral do tempo e Síndrome.

Na web, é possível acessar dezenas de entrevistas que ele fez com outros poetas, inclusive comigo, e publicadas no site Balacobaco.

Sua produção era compulsiva.

É necessário que alguém organize todos os seus textos, na forma de edição crítica, para reunião em livro.

Mas não vou aqui fazer análise literária do amigo morto; já o fiz, quando ele era vivo, em dezenas de trocas de e-mails e em conversas telefônicas periódicas, e também no prefácio que escrevi para um de seus e-books.

Eu o encontrei pessoalmente apenas duas vezes, no Rio de Janeiro; a primeira foi em seu apartamento, quando fizemos a única reunião do conselho editorial da Zunái, há uns três ou quatro anos, e a segunda foi há poucas semanas, no Real Gabinete Português de Leitura, durante o festival Artimanhas Poéticas.

Fiquei surpreso por ele aceitar o convite para participar do recital, pois Rodrigo não saía de casa, nunca, por problemas de saúde (nos últimos meses, porém, chegou a fazer até um curso de pintura, e começou a dar voltas no quarteirão, algo impensável quando o conheci).

O que dizer sobre Rodrigo?

Que foi uma das pessoas mais doces que conheci?

Sempre gentil, generoso, compreensivo e, paradoxalmente, lúcido. Porém, muito cruel consigo mesmo.

Ele sabia que não ia ficar muito tempo por aqui.

Como Leminski, Torquato, Faustino.

Ele sabia que, em pouco tempo, ia cair fora do “triste hospital” de que falava Mallarmé.

E caiu fora, mesmo.

Hoje, recebi a notícia de que o meu amigo e parceiro na Zunái, desde o início da revista, virou constelação.

Adeus, Digo.

Você vai deixar muitas saudades em todos os que o conheceram e conviveram contigo.






(Poema de Rodrigo de Souza Leão, do livro O caga-regras.

Pará de Minas: Virtual Books, 2009.)

UM POEMA DE O CAGA-REGRAS


"Guelras e silêncio. As formigas passeiam pelos peixes. Jonas e sua baleia estão expostos. À mostra, toda a tradição. Estandartes nas mãos. Crianças começam a cantar o estribilho do hino nacional. As bandeiras se masturbam no vento. Poetas discutem a complexidade do mundo sem complexidade. O hino é belo e a flâmula é verde e amarela. Eu só queria romper a bolha que me prende a esta casa e a estes metros quadrados. Eu iria à feira ver os peixes mortos. Sentir o odor fétido das sardinhas expostas. E não ler em algum lugar que tudo está à venda. Inclusive as cabeças dos líderes da oposição poética. Um a um decapitados por serem apenas diferentes."



Escrito por zanzes às 12h16
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Poema (In Memoriam)

 

Michael “Neverland” Jackson

 

(Sampa 25.06.09)

 

 

“Você pode mudar o mundo/(Eu não

consigo sozinho)/Você pode tocar o

céu/(Vou precisar de ajuda)/Você é

o escolhido/(Vou precisar de um sinal)/

...E se todos chorassem hoje à noite?”

 

Cry (Michael Jackson/R. Kelly)

 

 

 

 

Michael Jackson era negro e queria ser branco (com sua cota ancestral de dor negra)

O que o vitimizou – como um estigma

Michael Jackson era pobre e queria ser rico (de posses infantis e desejos transversais)

O que o desconfigurou como um estorvo

Michael Jackson era homem e queria ser mulher (de alguma maneira que pudesse)

O que o adulterou - Narciso cego, Édipo manco

Michael Jackson queria ser judeu (mas era um Peter-Pan enjaulado em cantagonias)

O que o marcou como ser na identificação de.

 

Michael Jackson como um não-Ser num não-lugar

Cantava dançava compunha dirigia criava voava

Um quase preto homem-menina com desvios íntimos

Com fox-trot nos pés e nos quadris portentosos

E uma alma sempre criança mal-amadurecida

Na ultrajada inocência para fins midiáticos e lucrativos

 

Fugiu-se na música – as ousadas canções

Tinha ritmo frenético – em viagens sonoras

Sobreviveu feito ermitão – urbano entre brinquedos

O pop do alto ao chão – paranóia na vida-livro

Muito além dos píncaros da glória efêmera...

 

Agora não tem cor – Não há cor na morte

Agora não tem posses – Nada levamos daqui

Agora não tem sexo – A terra há de comer

Agora não tem vitiligo: pergunte ao pó

 

Para ter sua tão sonhada Neverland

Assim na terra como no céu em purgações

Cortaria os próprios pulsos com música

Melodia, harmonia, ritmo em vício-clip

 

Sem saber que do outro lado da vida-hollywood-presley

Não há hormônios - nem cirurgias

Não há espelhos – nem camarins

 

Talvez nalgum lugar entre o céu e o inferno da terra-mãe

Ele encontre finalmente paz – mas uma paz não humana

E então não tenha mais vergonha da cor

Não tenha nunca mais vergonha do rosto

Não tenha vergonha da origem ou do sexo

 

Porque seu espírito atribulado finalmente se refrigerará

Em estúdios muito além de suas tantas realidades paralelas

E dentro da morte – muito além do som do silêncio –

Ele novamente ensaiará os primeiros passos de si mesmo

Como num “Thriller”.

 

-0-

 

Silas Correa Leite – Santa Itararé das Letras, São Paulo, Brasil

E-mail: poesilas@terra.com.br

Blogue premiado do uol: www.portas-lapsos.zip.net

Autor de “O Homem Que Virou Cerveja”,

Crônicas Hilárias de Um Poeta Boêmio,

Prêmio Valdeck Almeida de Jesus, Salvador, Bahia, 2009, Giz Editorial, no prelo

 

 



Escrito por zanzes às 01h26
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Escrito por zanzes às 18h32
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Uma Árvore

não sei o que esta árvore esgalhada e seca sentiu quando estas aves poisaram nos seus ramos. sei que hoje me senti árvore.
numa esplanada, eu lendo, levanto os olhos e vejo que um bando de pardais, julgo que eram pardais, me rodeava. no inicio poisando na mesa, rondando-me os meus pés, para depois se aproximarem, cada vez mais, devgarinho mas sem medo. nas mesas vizinhas, atentas,as pessoas sorriam. tão bon
ito! foi então que lembrei
"dos fundamentos dos pássaros" .


Escrito por zanzes às 12h59
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Nietzche Responde e é Comentado.

´´Duros com efeito, são os que criam. Só é perfeitamente duro aquele que é mais nobre. É esta tábua, meus irmãos, que eu trago: tornai-vos duros! Tudo parte, tudo revém: eternamente gira a roda do ser. Tudo morre, tudo refloresce, para sempre jamais corre o ano do ser. O centro está em toda parte. Curva é senda da eternidade.´´ Nietzche. - O ponto de vista das águas desconhece antropomorfização do espaço: o ponto de vista das águas reflete amalgamando a Rocinha e o Leblon.... só a contundência na Arte é original, nela creio ´cromomatizando´.

Flávio Viegas Amoreira , in http://www.cronopios.com.br/site/default.asp



Escrito por zanzes às 15h26
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Gastão Cruz (1941)




Tudo o que puderes dizer-me
agora que ainda não é noite
enquanto ainda não se espera
a solidão mas talvez já a
morte agora que passamos
o rio sem que a noite
já sem a noite
atravessamos tudo diz-me tudo
o que subitamente se desprende
de tudo diz-me sem que na voz sem
que o sentido do que dizes seja o que
sentimos na escuridão
do sangue sem que o medo do amor
ou a vida o rio que
passamos a tarde
que sentimos tudo
digam

Gastão Cruz, "Alteração"


Escrito por zanzes às 12h40
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Cartas do Deserto

"...Mergulhado nas profundezas cristalinas da vida, tentando atingir, intensa e desesperadamente, algum significado. Uma pessoa perfeitamente consciente dos véus pintados de maya, de cúpulas de vidro multicoloridas dando tonalidade à brancura radiante da eternidade, estremecendo no intenso vazio..."

Saul Bellow em 'O legado de Humboldt' Trad. de Fernando Py

.....................................................



Escrito por zanzes às 19h32
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Poema do Homem de Rua
 
 
AINDA GUARDO NO OLHAR
AQUELE HOMEM DE RUA
COMO SE A SE PROCURAR
NUMA OUTRA VIDA SUA...
 
TALVEZ UM ANTIGO LUGAR
MULHER, FILHOTE  OU LUA
TETO PRA CHAMAR DE LAR
QUE NUNCA SE DESCONSTRUA
 
AINDA GUARDO NO OLHAR
QUANDO A SAUDADE ACUA
COMO PODE SE ENQUADRAR
NA IMAGEM QUE FLUTUA?
 
AINDA GUARDO NO LEMBRAR
E TUDO AINDA SE ACENTUA
O SER A PEREGRINAR...
QUANDO A IMAGEM RECUA
 
TALVEZ SEJA UM REGISTRAR
A VERDADE NUA E CRUA

TALVEZ POR ME APIEDAR
DAQUELE HOMEM DE RUA
 
 
Silas Corrêa Leite  
www.itarare.com.br/silas.htm
Itararé-SP
www.portas-lapsos.zip.net
Contatos:
E-mail:
poesilas@terra.com.br



Escrito por zanzes às 16h53
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Escrito por zanzes às 15h39
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ROMANCE “A MULHER, O HOMEM E O CÃO”,

UMA ‘NEVERLAND’ NA HILÉIA AMAZÔNICA

 

 

“Com o que não te digo/

Teço um enigma/

O que digo sempre/

Nega o evidente(...)

 

Inconfesso, Antonio Mariano

In, Guarda-Chuvas Esquecidos

Editora Lamparina

 

 

Para falar do novo livro do escritor paraense radicado em Taubaté-SP, Nicodemos Sena, “A Mulher, o Homem e o Cão” (Ed. LetraSelvagem, 2009, Coleção Gente Pobre, 152 pág.) não teria como não me reportar ao sucesso que foi a portentosa obra “A Espera do Nunca Mais” (Ed. Cejup, 1999), um caudaloso romance elogiado pela crítica, “que faz meio-termo entre ficção e realidade (...); alto estilo, demonstrando vigor e consciência estética(...)”, segundo Ronaldo Cagiano (in Opção Cultural). A amazônica como um todo, resgatada e retratada, do rural-agreste e ermo aos ‘anos de chumbo’ da ditadura militar (o escritor é um retratista de seu tempo e das amarguras de seu tempo?), no letral, literal, e lítero-culturamente sob todos os aspectos. “Uma aula de Amazônia (...)”, diz Oscar D’Ambrosio (in Caderno de Sábado, Jornal da Tarde).

Coloco pra mim, entre os dez melhores romances brasileiros, não necessariamente numa ordem linear, “Dom Casmurro” ( Machado de Assis), “Grande Sertão: Veredas” (Guimarães Rosa), “Vidas Secas” (Graciliano Ramos), “Incidente em Antares” (Érico Veríssimo), “Crônica de Uma Casa Assassinada” (Lúcio Cardoso),  “Macunaíma” (Mário de Andrade), “O Cortiço” (Aluisio de Azevedo), “Dona Flor e seus Dois Maridos” (Jorge Amado), “O Cais da Sagração” (Josué Montello), e, entre todos os do Autran Dourado (que é ótimo em tudo o que escreve), o recente romance “A Mulher, o Homem e o Cão”, de Nicodemos Sena, certamente o maior romancista brasileiro contemporâneo, pouco pop e naturalmente muito cult, diga-se de passagem.

Como gosto de ler um livro de fio a pavio (e nas entre/linhas), como se comesse uma iguaria pelas beiradas, defeito-qualidade de um glutão de letras e gastronomias de quilate, já sondei a orelha de um dos maiores críticos brasileiros de todos os tempos, o Oscar D´Ambrósio, que aponta Nicodemos Sena como um grande contador de histórias com mitos que se cruzam com o mundo fantástico do autor, acordando o gigante adormecido da capacidade de raciocinar enquanto ser humano (picadeiro de dilemas, enigmas e desafios do verbo existir). Vá vendo. Quero dizer, vá lendo. Deguste.

Depois, o prefácio da doutora Christina Ramalho (UFRJ), que nomina a obra como um “... caleidoscópio com tantos significados próprios, metamorfoses sobrenaturais plurissignificativas (...).” A floresta invadindo a obra do autor, que deixou a Amazônia, mas a Amazônia não o deixou, ou seja: vai com ele por onde ele for, sendo ele, é ele, selva-metáfora, o homem em busca de si mesmo, na selva urbana exaurida, dentro de si, no escre-Viver. Por aí.

No posfácio, Dirce Lorimier Fernandes (doutora em História e da APCA), fala do rico mundo encantado de criação, mistérios e encantamentos na obra de Nicodemos Sena. A inutilidade da existência (por isso escrevemos, criamos, deixamos nosso documento-identidade em sons, palavras, símbolos, crenças, devaneios, enigmas e artes loucas?). O autor rasga o véu da alma-mente-espírito, e numa treva branca destila-se, o tudo sentir, o sobre/Viver. Eis o homem.

Por fim – antes de entrarmos nos ramos qualificados da obra propriamente dita – uma surpresa: Um pós-posfácio do próprio autor (Acerca de “A Mulher, o Homem e o Cão”), falando de seu solilóquio, monólogo interior, desconfianças; encerrando assim: “... basta dizer que a selva, onde vivem as personagens (e onde eu nasci), é, no livro (...) apenas a metáfora de todas as solidões terrenas”. Lindo.

O romance-livro realmente é de linda floração cultural e envergadura literária (qualidade técnico-editorial de primeira, capa de James Valdana, desenho de capa e miolo Olga Savary); de se pegar e não largar mais. Cativador na elegante fruição, entre subidas e descidas aos céus (todos os céus, não se sabendo se o céu – qualquer um – veio até Nicodemos ou ele é que foi até ele). Elogiado pela crítica especializada, esse autor paraense tem um jeito todo próprio de narrar, ir e vir nas orações, levar e trazer o leitor, cativando, encantando, sacudindo-o. Grande estilo.

Aqui e ali, um personagem (personagem?) meio malazártico, numa narrativa bem macunaímica, sua narrativa às vezes nos remetendo à literatura fantástica (personagens bizarros até), de um anarquista misterioso, estilo utópico, B. Traven (Chicago 1890, México 1969), que teve na sua obra, como pano de fundo, a floresta mexicana (“O Visitante Noturno” entre outra criações de relevo), ficando um triângulo de Nicodemos Sena entre Macário de B. Traven, Macondo (de Gabriel Garcia Marques, do qual Nicodemos carrega aqui e ali parecenças) e o “espaço” floresta amazônica no livro, um não-lugar, um lugar-nenhum-todo-lugar/qualquer lugar, ele mesmo, o autor, Nicodemos Sena impregnado de talento, criatividade e técnica densa de narrar com veias e variações, as propriedades e impropriedades de suas origens, raízes, matrizes, mãe(s)-Terra/rio. O fado do destino humano sujeito a incongruências mesmo... Será o impossível?

Sim, a nova obra do autor, “A Mulher, o Homem e o Cão”, tem o sígnico da relação homem-terra, homem-rio, homem-celestidades, homem-demônios (e fantasmas) da terra, rio (e céus?); triângulo com o macho, a fêmea e o sobrenatural. Paradoxalmente ao que o próprio autor diz no livro (pág.25), é na escreveção que os homens sensíveis se refugiam da loucura. A loucura é santa? “Deus usa os loucos para confundir os sábios?”.

Coisas visíveis e invisíveis se metamorfoseiam nas narrativas cativantes, só que o leitor tem que estar bem enlivrado, por assim dizer, para ir, aqui e ali, sacando inteiro e completo, recebendo outro novo inédito enfoque concomitante ou adjunto (histórias na história), a árvore-janela, o cão-passarinho, o homem-peixe, o Deus que não é deus, o enlevo, a catarse, o onírico, colheitas de mitos retraduzidos e retrazidos. E o autor diz na contação da recontação literária em graça de prosa poética:

“É esse,  senhor, o efeito do espanto: o espírito esforça-se por estabelecer uma relação, uma ligação de causa e efeito, mas, achando-se impotente para consegui-lo, sofre uma espécie de paralisia momentânea, e, tão logo se recupera do assombro, sente crescer dentro dele gradualmente uma convicção que clareia a mente e impulsiona o corpo (...). –Roubaram-nos a alma, agora tudo está encantado!”

A mulher-porca, as canoas de serpentes, o rio margem e beira (loucura-lucidez), tudo ciciando devaneios, registros, despojos letrais, acercamento. O rio de nossa infância, nossa origem, anda conosco, viaja conosco, sofre vazamentos, seca, aflui, tem sua derrama espiritual? O domador de mentes o que é? Ladrão de mulher, diria o mote popular parafraseado de um ente de circo.

Livro de peso que tem névoas clarificadas. Que dá gosto ler. Que se passa daqui prali, num sem-pulo, de um tópico frasal para outro, levando e trazendo o leitor boquiaberto, seduzido sim, onde a voz ora é de um (uma), ora de outro (outra... criaturas...). O autor costurando o xale de sua áurea-aura-halo. Incompletudes. Desabandonos. Desespelhos.

Na alegria e na tristeza, na fome e na dor... como um casamento do autor com o dom, a sua terra, o seus rios (lacrimais), agonias, angústias, causos do arco da velha vêm inventariados, inverdades, não mentiras, o próprio ofício de criação com iluminuras de espectros, ressentimentos, passados, transcendências, travessias, veios, cisternas, corredeiras, jorros; palco iluminado para dar voz e vazão a seres e não-seres, num imaginário pra lá de espetacularmente rico, portentoso.

Aqui e ali, paráfrases bíblicas bem situadas (há um Deus), narrativas que lembram recorrências de um Jó bíblico negando-se a si mesmo sem negar o Criador, chuvas, nuvens, paragens, afogadilhos e afogados com lanternas, o repugnante e o sagracial, e entra no historial das contações com barulhanças e tristices, de Nero a Hitler, passando por Herodes, aqui e ali tentando um sentir imenso a partir de um nada sentir (o autor ficou doente depois de escrever o livro?... Mistério... Lenda...).

Os sobre-humanos estão nas páginas do livro, nas páginas de rostos-purgações, de restos-retalhos-retratações-partilhas (histórias do ouvi-dizer, ouvi-viver), ou na própria concepção magistral como um todo da obra?

Pois é: eis a obra, eis o autor, e, cá entre nós, eis uma tentativa de resenha crítica de quem se apaixonou pelo romance “A Mulher, O Homem e o Cão”.

Aliás, falando sério, qual dos três (entre tantos) personagens do tema-obra gostaria de escrever uma história assim?

Nunca se sabe o desfecho de uma fábula. Leia e deguste.

-0-

 

Silas Correa Leite – Autor de Campo de Trigo Com Corvos, Contos, Editora Design

 

 



Escrito por zanzes às 21h00
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                Pressentir
 
 
No tempo, o tempo quer que se adivinhe
o tempo que virá e como vem.
Em tempo de esperança, quem detém
o tempo que se quer que em nós se aninhe?

Nas horas de emoção, o tempo arfando...
Projecta-se o futuro no presente!
E o sortilégio já não sabe quando
ou vive ou sonha o que pressente ou sente!
          
Ao sol do meio-dia, a tremulina
mal deixa divisar e só sugere
que nítido o ambíguo se defina...

Contornos proibidos de mulher
deslumbram deslumbrados na retina!
E um trémulo desejo queima e fere...

 
José-Augusto de Carvalho
Da colectânea em preparação: «Esta lira de mim...»
 
  


Escrito por zanzes às 20h50
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Escrito por zanzes às 14h57
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Escrito por zanzes às 12h02
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