. Poema para Primeiro de Dezembro
.
A rataiada miúda já sonha o natal e um ano novo cheio de felicidades. Dessa raça, mais da metade foi pro pau E o resto quer um mundo de facilidades. . Eu escuto o CD do França e está bom. A vida já é meio caminho andado e a poesia desse rapaz tem o dom. O curitibano está bem acompanhado. . Dois mil e nove falta pouco pra acabar e eu fiquei aqui pensando com meus culhões: Quantos janeiros ainda até alguém me matar? Mais quantos fevereiros entre os foliões? .
De que tamanho é a sombra que me assombra? Por que quanto mais estudo mais me faz falta a inocência pura e besta em festas de arromba? Não, não é queixa e nem dor o que me assalta… . Apenas acordei com saudades de mim, mais nada. Vou em frente. E o sol solto lá fora é aviso de que as coisas não são bem assim. O mundo é belo e a vida só se for agora! . Antonio Thadeu Wojciechowski
Escrito por zanzes às 12h34
[]
[envie esta mensagem]
[link]

Salmo para Julia Moura Lopes, do Porto, Portugal Senhor, tende piedade dos meus pés descalços Sobre a calvície oblíqua da terra cor de sangue E olhai para as bolhas de água dos meus dedos Que singram carcaças nunca dantes navegadas Senhor tende piedade das espigas de milho Que colhem o ouro do sol com energia atomal E nos devolvem em broas e pudins e horizontes Que dedilhamos sementes em almas andarilhas Senhor tende piedade da água na ponte de pedra De uma Portugal que é prelúdio dentro da gente E abençoai a alma poética da amiga Julia Moura A escrever-nos em salmouras santas na distância E por fim, Senhor tende alguma piedade de mim Lusonauta trazido da Ilha da Madeira numa leva Todos na diáspora a fugir do terror de uma cruz E por teu santo nome nos fizemos brasilíndios Nesta américa latina em pó deixamos os finca-pés De ancestrais lusos com líricas em santas cítaras E no escambo a poetar com a alma de Julia Moura Nossas lágrimas de sangue o olhar dela de pepitas -0- Silas Correa Leite E-mail: poesilas@terra.com.br www.campodetrigocomcorvos.zip.net
Escrito por zanzes às 09h38
[]
[envie esta mensagem]
[link]

QUANDO MORREU
Para Bertold Brecht (In Memoriam)
Quando morreu o coitado Tinha profundas palavras impressas na pele da face Nada demais para um poeta anônimo Deixando o seu legado
Desmaiou sobre o teclado A pele perdeu o viço - e o sangue seco impregnou As marcas das teclas de algumas letras E alguns captaram algo
O poeta de-assim foi Convidado a se retirar com palavras no rosto Simbolizando que talvez continuaria Vida e sensibilidade total
Ainda no caixão roxo Entre flores, lágrimas e algumas cantorias rudes Seu rosto estava fácil de ler palavras Sem sentido, mas com vincos
Anos depois de morto Foram tirar os ossos do cadáver já decomposto Mas ainda havia nos legados os caracteres Parecendo um milagre
Aqui e ali, nos vãos As marcas impressas - que a terra confirmou bem (Um sobrinho já metido a poeta fez Um aquário para os restos)
......................................
Ainda hoje se vê claro As palavras entre a água - E a suspeição triste De que o pobre poeta anônimo Insiste em dizer alguma coisa Silas Correa Leite Itararé/SP
Escrito por zanzes às 20h21
[]
[envie esta mensagem]
[link]

| Poema | | Hino à Morte Tenho às vezes sentido o chocar dos teus ossos E o vento da tua asa os meus lábios roçar; Mas da tua presença o rasto de destroços Nunca de susto fez meu coração parar.
Nunca, espanto ou receio, ao meu ânimo trouxe Esse aspecto de horror com que tudo apavoras, Nas tuas mãos erguendo a inexorável Fouce E a ampulheta em que vais pulverizando as horas.
Sei que andas, como sombra, a seguir os meus [passos, Tão próxima de mim que te respiro o alento, — Prestes como uma noiva a estreitar-me em teus [braços, E a arrastar-me contigo ao teu leito sangrento...
Que importa? Do teu seio a noite que amedronta, Para mim não é mais que o refluxo da Vida, Noite da noite, donde esplêndida desponta A aurora espiritual da Terra Prometida.
A Alma volta à Luz; sai desse hiato de sombra, Como o insecto da larva. A Morte que me aterra, Essa que tanta vez o meu ânimo assombra, Não és tu, com a paz do teu oásis te terra!
Quantas vezes, na angústia, o sofrimento invoca O teu suave dormir sob a leiva de flores!... A Morte, que sem dó me tortura e sufoca, É outra, — essa que em nós cava sulcos de dores.
Morte que, sem piedade, uma a uma arrebata, Como um tufão que passa, as nossas afeições, E, deixando-nos sós, lentamente nos mata, Abrindo-lhes a cova em nossos corações.
Parêntesis de sombra entre o poente e a alvorada, Morrer é ter vivido, é renascer... O horror Da Morte, o horror que gera a consciência do Nada, Quem vive é que lhe sente o aflitivo travor.
Sangue do nosso sangue, almas que estremecemos, Seres que um grande afecto à nossa vida enlaça, — Somos nós que a sua morte implacável sofremos, É em nós, é em nós que a sua morte se passa!
Só então, da tua asa a sombra formidável, Anjo negro da Morte! aos meus olhos parece Uma noite sem fim, uma noite insondável, Noite de soledade em que nunca amanhece...
Só então, sucumbindo à dor que me fulmina, A mim mesmo pergunto, entre espanto e receio, Se a tua asa não é dum Anjo de rapina, Se eu poderei em paz repoisar no teu seio!
Inflexível e cego, o poder do teu ceptro Só então me desvaira em cruel agonia, Ao ver com que presteza ele faz um espectro De alguém, que há pouco ainda, ao pé de nós sorria.
Mas se nessa tortura, exausto o pensamento, Para ti, face a face, ergo os olhos contrito, Passa diante de mim, como um deslumbramento Constelando o teu manto, a visão do Infinito.
E de novo, ao sair dessa angústia demente, Sinto bem que tu és, para toda a amargura, A Eutanásia serena em cujo olhar clemente Arde a chama em que toda a escória se depura.
É pela tua mão, feito um rasgão na treva, Que a Alma se liberta, e de esplendor vestida — Borboleta celeste, ébria de Deus, — se eleva Para a luz imortal, Luz do Amor, Luz da Vida!
António Feijó, in 'Sol de Inverno' |
Escrito por zanzes às 19h38
[]
[envie esta mensagem]
[link]

 Ultimamente tenho observado a delicadeza humana e como é linda. Hoje em dia essa delicadeza tem estado tão presente na sociedade, no nosso país, que até mesmo os cavalos já têm permissão para trafegar em ônibus por nossas cidades. Isso sim é uma evolução.
Com certeza muitos de vocês já tiveram a oportunidade de ver um desses cavalos que andam por aí em coletivos. Normalmente são delicados como os aqueles cruzam os corredores dos ônibus empurrando, sem cerimônia, os passageiros que por ali estão estacionados ao lado dos bancos, e quando algum passageiro reclama que foi empurrado, o nosso cavalo batizado, este ser gentil, com toda a sua desenvoltura social, olha para o reclamante e docemente se desculpa:
― Ah! Vai te lascar! Quem manda ficar na frente?!
É mesmo comovente ver tanta finura. Também há as senhoras educadas e gentis que acertam suas bolsas um pouco grandes ― normalmente capazes de caber um garoto de dez anos dentro ― na cabeça de cada um dos passageiros que se encontram sentados ao lado do corredor, como numa espécie de Pinball. E suas respostas, se alguém tem a audácia de reclamar dessas marteladas tão sutis, são sempre algum adjetivo agradável:
―Quem manda ter um cabeção desse tamanho!
Não posso me esquecer de outras que, com bolsas semelhantes, se colocam do lado de passageiros, também nos bancos, e ficam ali, como quem não quer nada enquanto suas bolsas empurram a cabeça do coitado sentado. Em poucos minutos este já sofre de torcicolo e tem a face queimando. E é justamente nesse momento que ele faz a grande besteira de tocar no braço da proprietária do saco de dormir e avisá-la que sua bolsinha está empurrando seu rosto:
― Com licença, senhora: sua bolsa está batendo no meu rosto.
― E o que você quer que eu faça, quer que eu jogue a bolsa fora? Marmenino! Num to dizendo mermo! ― com o erre imaginário bem arrastado.
É quase uma declaração de afeto. A verdade é que onde há bolsa grande há dor.
Eu também já fui agraciado com um desses momentos ímpares ― hoje já não tão ímpares assim. Certa vez, estava numa parada de ônibus, eu e três moças, naquela expectativa animadora de quem espera um coletivo, quando finalmente o coletivo veio. Por coincidência, eu e as moças esperávamos o mesmo ônibus. Ficamos bem felizes por ele ter vindo logo, não havíamos esperado nem sequer cinqüenta e cinco minutos. Ônibus parado, fomos para a porta; contudo, a vida nem sempre é fácil: já diante da porta de entrada do veículo, cedo a passagem às três moças ― por que sou um cavalheiro, e não por que elas eram extremamente lindas, nem percebi isso, na verdade:
― Por favor, entrem!
― Obrigado, mas pode entrar.
― Vocês primeiro.
Quando:
― Sai da frente! Povo mais abestado! Ficam aí de nhenhenhém¹. Por que não entram logo?! ― disse um tribufu saído não sei de onde, mas indo para onde eu sei, o nosso ônibus, enquanto nos empurrava e tomava a frente da porta.
Foi algo tão sutil que ficamos assim, digamos, imóveis. Até aquele dia eu não sabia que o pé grande tinha uma filha. As moças, com certeza, tinham a pretensão de chegarem a suas casas sem escoriações, mas nem sempre se pode ter tudo. As três pareciam ter avistado um monstro comedor de moças, num bom sentido ― se é que existe bom sentido em comer alguém, acho que depende do ponto de vista de quem é comido. Mas deixando a comilança pra lá, foi realmente uma fonte de orgulho, ver aquela criatura cavalar, trotando pra entrar antes de todos no coletivo, como se estivéssemos todos lutando por nossas vidas, fugindo de algum exército mercenário sedento por sangue de inocentes do terceiro mundo. Jamais vou esquecer aquela égua impuro-sangue trotando. Quanta originalidade! Uma perfeita demonstração de que nem tudo está perdido, afinal, como disse Humphrey Bogart para Ingrid Bergman, em Casa Blanca: “nós sempre teremos Paris”.
E ainda dizem por aí que não evoluímos ― com todo respeito aos eqüinos, aqueles de quatro patas.
Imagem: Franz Moriz Wilhelm Marc, A Torre dos Cavalos Azuis, 1913. (Pintor alemão expressionista. Esse quadro está desaparecido).
*Texto originalmente publicado no site da TV Verdes Mares, em 29 de março de 2004, e no jornal O Povo, em 03 de abril de 2004.
¹UM MONENTO CULTURAL: "Nhenhenhém" vem do tupi "nheê nheê nheê" e significa "falar, falar". No Brasil virou sinônimo de "resmungo" ou de falatório interminável.
Escrito por zanzes às 11h43
[]
[envie esta mensagem]
[link]

Poema Escrito em JEI – EMEF José de Alcântara Machado Filho, Real Parque Morumbi INFÃNCIAS Que infância não tive? Que infância não me deram? Que infância me tiraram? Hoje, adultizado, poeta mal crescido Dizem que às vezes pareço meio criança perdido Querendo escrever o que não vivi A criança de hoje na creche No condomínio fechado; o dia inteiro na escola E cursos de teclado, inglês, informática, lan-house, balé Que infância na verdade não é? Das crianças das ruas do interior Tiraram a terra, as árvores, as ruas, os amigos, os jogos lúdicos E deram tevês, parabólicas, videogames, clubes de campo, gps A infância propriamente dita já despertencida Que infância é essa assim tão desaprendida? A criança precocemente na escola A criança entre quatro paredes o tempo todo A criança com estoques de presenças esgotados A criança que mal vive e que mal que sabe porque chora Com a natureza toda acontecendo num mundo aberto e real lá fora Balão, forfé, horizontes, brincadeiras, nuvens e carruagens de abóboras A infância pobre que eu menino não tive por cedo ter que trabalhar A infância que poderia ser rica se eu aprendesse o sonho de brincar De criar, subir e descer ladeiras, aventuras, criancices, contentezas Agora nenhuma criança esperta nem brincando na chuva tem mais Adultizado eu mesmo virei meio criança-poeta a sobreviver Virei criança crescida querendo de novo a infância no escrever Mas, e as crianças urbanas de hoje Que nunca crianças verdadeiramente saberão ser? Hoje, mal adultizadas, as crianças Querem ser o que não sabem ser Querem ser o que não podem ser Querem ser o que não tiveram como aprender... A escola não ensina a criança a ser criança no crescer Portanto, a escola não ensinará a criança a ser Aluno, adolescente, jovem, ser humano, cidadão consciente Nem terão o aprendizado de contentezas e prazeiranças de humana gente Assim, nunca existirão a vida intensamente! -0- Poeta Prof. Silas Correa Leite E-mail: poesilas@terra.com.br Blogue premiado do UOL: www.portas-lapsos.zip.net Teórico da Educação, Especialista em Educação, Jornalista Comunitário, Conselheiro em Direitos Humanos (SP), e Escritor, poeta, crítico literário e ficcionista Prêmio Lygia Fagundes Telles Para professor Escritor Ex-Coordenador de Pesquisas da FAPESP-USP em Culturas Juvenis Autor de Porta-Lapsos, Poemas, e Campo de Trigo Com Corvos, Contos, a venda no site www.livrariaucltura.com.br Poeminho da Série “Lecionar é a Nossa Melhor Rebeldia”
Escrito por zanzes às 15h26
[]
[envie esta mensagem]
[link]

Microconto
Há Pessoas Que São Aleijadas Por Dentro
Morreu mas jamais encontrou, sua bicicleta de pelúcia -0- Silas Correa Leite
Escrito por zanzes às 11h49
[]
[envie esta mensagem]
[link]

eis um computador no lixo. E todavia o crânio de lata teve memória dentro – gigabytes dela! – fez as quatro operações aceitou versos no seu imaculado vazio virtual.
agora já não soma nem subtrai nem geme poemas, nem sublinha erros de ortografia. os pingos de solda, precários neurónios de metal perderam a memória.
já que te antecipaste companheiro diz-me como é não funcionar.
e se a ferrugem dói.
a. m. pires cabral (macedo de cavaleiros - portugal)
Escrito por zanzes às 11h30
[]
[envie esta mensagem]
[link]

(Caraminholas sobre o Ovo e a Galinha, de Clarice Lispector)
E a empregada serviu o almoço. No meio da mesa, a travessa branquíssima cercada de folhas e legumes; no centro, bem no centro, um único ovo. Com casca e tudo. Um ovo para toda a família?, eu ia reclamar, mas o ovo me fez refletir. Afinal de contas, o que é um ovo? Sim, um só ovo, e lembrei-me de O Ovo e a Galinha, da Felicidade Clandestina, de Clarice. Não que eu tenha a ver alguma coisa com Clarice, longe de mim a pretensão (ou mesmo a vontade). Bom, mas o ovo. Se para a própria autora era este o conto mais hermético, mais incompreensível de toda a sua produção, não vou perder tempo em tentar entendê-lo, mesmo porque não era esta sua intenção. “Ou toca ou não toca”, disse ela uma vez. Única brasileira no Primeiro Congresso Internacional de Bruxaria ocorrido em Bogotá, 1975, pediu que fosse lido O ovo e a galinha e que a leitura não fosse ouvida apenas com o raciocínio. “Se meia dúzia de pessoas realmente sentirem esse texto, já ficarei satisfeita”, foi o que afirmou na ocasião e que vale até hoje. Então, vamos ao ovo. O que eu vejo, ao contrário do conto de Clarice, não está na cozinha mas sim na sala de jantar, bem no centro da travessa branca. Solitário e monumental no seu mistério. Qual mistério? Ora, talvez para Clarice ou para a galinha que, de repente, viu seu futuro rebento sumir da chocadeira. Para mim, um ovo é um ovo é um ovo; tudo se resume a uma questão de olhar. Mais do que o ovo, vejo o texto, o de Clarice e de tantos outros, olhares lançados sobre palavras que se mantém há milênios e assim será independentemente do suporte: papiro, papel, tela, kindle, que importa... O que ela quis dizer no seu conto-ensaio senão que a literatura se mantém viva enquanto sobre ela houver reflexão? Nesse contexto, acho o ovo óbvio: é literatura. Isso, para mim que escrevo. Se fosse filósofa, diria que o ovo é o existir e se fosse psicóloga, diria que o ovo é o sentir. Mas sou escritora, então tudo converge para o meu mundo de idéias, solitárias no meio de uma travessa branca enquanto não forem decodificadas e passadas para o papel. Se o ovo é uma exteriorização do ser, como quer Clarice, então cada um tem sua própria casca. Cada casca, cada ovo é um e um só. Quem tem fome de ovo-texto que se debruce sobre tudo o que já foi escrito para depois, finalmente e muito depois, poder desnudar-se, como quer Clarice, ou reconhecer-se, como digo eu, na sua própria casca. A casca é a casa do escritor, sua, só sua, impossível de usurpar. Na arte não cabem joões-de-barro. Mas cabem olhares, ainda que sobre um simples ovo que assim se torna eterno. Fossem os trágicos gregos, o ovo estaria no centro de um conflito familiar terrível, onde os homens nada poderiam fazer senão obedecer aquilo que os deuses lhes reservaram, o destino tristemente lamentado pelo coro. E nós, o público, num processo catártico, sairíamos do teatro aliviados já que o problema não era nosso, mas sim do ovo e da galinha grega. Diferente se fosse o olhar de Brecht, que nos manteria num distanciamento proposital e assim carregaríamos o problema-ovo para casa, a trama sem solução ocupando nossos pensamentos por dias e dias. Pulando para a Dinamarca, quem sabe um príncipe angustiado faria um solilóquio em torno do ovo solitário: comê-lo ou não comê-lo? Elementar, meu caro Watson, interviria Sherlock Holmes e resolveria o problema nas linhas de Conan Doyle que, ao invés de ser famoso por causa do detetive, queria mesmo era ser reconhecido pelos seus chatíssimos ensaios sobre História. A propósito, cada um sabe o ovo que carrega, não escolhe a casca. Poirot certamente reuniria os suspeitos numa sala e após interrogá-los, contaria para a Dama do Crime qual o culpado pelo ovo, seu desaparecimento ou seu plágio. Num pub de Dublin, Leopold Bloom pararia à noitinha, antes de voltar para casa, e talvez tomasse um eggnog... Mas eis que numa montanha mágica, cheia de neve e solidão, vemos o ovo como centro das atenções numa festa de internos num sanatório idealizado e alienado da vida da planície, mal sabedores que seu mundo, cercado de proteção, estava prestes a desabar. Pensemos na galinha deitada no divã freudiano, sofrendo a síndrome do ninho vazio, enquanto o ovo certamente sente falta daquele interior que o abrigou, numa indisfarçável pulsão edipiana. Êpa, alguém poderia dizer: em se tratando de galinha não é pulsão mas sim instinto. Então pergunto: desde quando galinha tem instinto? Taí um outro problema para pensar. Mas voltando sempre ao ovo, fico me perguntando se ele não seria filho daquela galinha de domingo, conto exemplar da mesma Clarice, que, sozinha no mundo, sem pai nem mãe, pairava ofegante num beiral de telhado, aquela mesma que ia virar almoço e acabou se tornando um dos cem melhores contos brasileiros. Por ela interveio a menina: - Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! ela quer nosso bem. Assim como a menina, uma vez prometi (e não cumpri) nunca mais comer galinha. Mas e Mrs. Dalloway? Ou a Bovary? O que diriam elas sobre o ovo no centro do mundo? Na Rússia czarista, tomar de assalto um ovo seria um crime seguido do necessário castigo? E se Gregor Samsa tivesse acordado de um sono agitado e visse que se transformou num imenso... Chega!Quanta bobagem, meu Deus. A ficção não tem fim, ainda que seja em torno de um mero ovo. Bem disse Santa Tereza D’Avila que a imaginação é a louca da casa. A muito custo, ponho as infinitas ligações literárias de lado (que não são perigosas como as de Chordelos de Laclos) e volto à realidade que me cerca. Para evitar a tentação de mais digressões, alcanço o ovo na travessa, levo-o para a cozinha e com um ligeiro estalo da casca, abro-o em cima da frigideira onde se dá a maravilhosa transformação: de mero líquido pegajoso e mal-cheiroso surge, no dourado da manteiga, um dueto de clara e gema, cheiroso, borbulhante, fonte de inefável, indizível, inimitável prazer. Basta senti-lo, sem tentar entender. Era isso, Clarice?:

Jeanette Roszas é escritora e advogada. Publicou Feito em Silêncio, Editora Vertente, e Autobiografia de um crápula. E-mail: jeanbe@uol.com.br Texto tirado do site www.cronopios.com.br
Escrito por zanzes às 12h42
[]
[envie esta mensagem]
[link]

Pensão da Dona Nena na Rua Prates Fui morar numa pensão da Rua Torres Tibagi No bairro do Tucuruvi, começo dos anos setenta em São Paulo Em que a dona do lugarejo era uma biscate buliçosa e démodé Que se achava mal oxigenada a rainha da cocada preta Ali passei fome enquanto a vaca velha jogava maionese no lixo de um natal qualquer com fome Enquanto tocado no meu intimo e vários dias sem comer eu lia Mahatma Gandhi. Quando dei uma melhoradinha na vida em São Paulo (Sem dinheiro na metrópole entrevada pelo militarismo câncer) Ajudado pelo amiguermão Getulio Ferreira da Silva Fui morar na pensão familiar da Dona Nena na Rua Prates E ali foi o melhor recanto que tive fora do lar e longe de casa Éramos uma família, todos aqueles caipiras apensionados felizes E eu caía de paixão pela morena Cidinha filha da prestimosa Dona Nena. Morei em outros lugares, canfudós, cheguei a dormir na rua Morei em becos, cortiços, de favor, em outros cantos e repúblicas Mas jamais esquecerei a Pensão de Dona Nena na Rua Prates em frente a uma empresa de Café Ali dei meus primeiros passos para ser um vencedor na vida Voltei a estudar, trabalhei em imobiliária e empresa de cobranças Até me formar e ser o que sou agora, um vencedor com mãos de tesouras. Rosangela é meu Lar. Rosangela é o mais perto do céu que eu posso chegar. Tenho meu cantinho, meu refúgio, e ao pensar na Pensão da Dona Nena na Rua Prates do Bom Retiro É como seu eu saltasse piruetas dentro do meu coração alumbrado E fizesse estripulias de doces memórias como se afinal descobrisse enternurado De que há maravilhosos seres humanos na terra!. -0- Silas Correa Leite E-mail: poesilas@terra.com.br
Escrito por zanzes às 12h14
[]
[envie esta mensagem]
[link]

AIR-BUS (FRANCE) VOO 447 I Entre a água dos oceanos E o sol límpido do quase além céu O silêncio no todo entre derredor A primeira nota do silêncio: Não ter lugar de seu em self Para ser chorado – e velado A tristeza Um exército de almas na Tessitura do céu-mar- Lágrimas O aeroporto que nunca chega A morte que talvez não exista O horror, o estertor O esplendor do vazio A paz-aquilo(silêncio) D.us? II Não haverá funeral, missa Corpodespresente Nem floração de lágrimas Apenas o univer-sal?: Oceano-universo-historial A alma-valise O espírito pleno flui o Mar-da-tranquilidade Viço-vida: o vôo, o outro A morte é só na terra (o silencial – tudo entre O céu) infinito Os oceanos – lágrimas (de anjos) Todos os sobre- Viventes III No espírito e na liberdade Nem culpas Velocidades Sistemas panes: A fuselagem vítrea do Self (Céu) A velocidade Da purificação Todos os chamados Escolhidos Não haverá mais dor Assim na terra como no céu Silêncio-quásar Muito além da caixa-preta Muito além do desjardim -0- Silas Correa Leite E-mail: poesilas@terra.com.br
Escrito por zanzes às 11h55
[]
[envie esta mensagem]
[link]

EU MUDEI – Eu Tinha Medo da Morte Desde que me dei por gente, lá na minha terra-mãe, Itararé, Cidade Poema, sul do Estado de São Paulo, divisa com o Paraná, sempre tive um horrível medo da morte. De família protestante, aquela do “Deus castiga”, e eu, que tinha sido criado com a máxima de que tudo na terra – a perfeição da orquestra da natureza - era obra universal do Criador, ao ter uma morte em família, fiquei naquela de “se for pra destruir, pra que é que fez?” Traumas. Neuras. A infância amargurada. O medo da morte piorou. Nem havia mesmo muito sentido em viver, família pobre, origem humilde, periferia carente, aquilo era terrível. A partir daí, com minha sensibilidade, comecei a precocemente escrever poemas no curso primário do Grupo Escolar Tomé Teixeira. Hoje colaboro com mais de 500 sites. Mas a vida vai nos limando, tirando lascas, a dor vai nos melhorando, as perdas vão mexendo com estruturas íntimas; visões revistadas, até que um dia eu saí-me de mim. Estava no “alto” (o espírito), e via-me deitado na cama, respirando normalmente. Então compreendi que a finita vida corpórea era uma, e que, sim, havia uma outra vida, talvez um novo céu e uma nova terra, dos Evangelhos. Vim ganhando e perdendo pela vida. Estudei, venci, lancei livros, ganhei prêmios como escritor, venho realizando todos os meus sonhos, claro, acreditando sempre em Deus, até porque, se com ele somos tão poucos, imaginem sem Ele. A terra no espaço é um micro grão de mostarda. Imagine um ser humano, uma pessoa, um passageiro lusonauta. O eterno aprendizado da vida. Com tantas lutas, com tantos estudos (e quanto mais estudo mais descubro que tão pouco sei), passei a entender que morrer era mesmo um descanso, um fim de ciclo. Afinal, ser eterno nessa dimensão atrasada deve ser um castigo. Ora, uma semente cresce, vira árvore, dá flores e frutos, fica velha e morre, por que o nosso corpo nesse mundo – que às vezes é um inferno – teria que se perpetuar?. São Paulo dizia: Morte, onde está a tua vitória? Há um Deus. Hoje, mudei, não tenho medo da morte, escapei dela por varias vezes, às vezes chego a pensar que é ela quem tem medo de mim. Quando olho para trás, vejo as conquistas que tive como um determinado com resiliência, então me lembro que da vida só levamos mesmo, o amor que deixamos. Um livro, uma árvore, um filho, um rol de amigos, uma história, um rol de mudanças. Mudar é evoluir. Então concluí, poeticamente: “Somos Todos Sementes. Quantos de Nós Serão Flores e Frutos, e Recriarão, Para Sempre, a Eterna PRIMAVERA”. -0- -Poeta Silas Correa Leite, Escritor Premiado em Verso e Prosa, São Paulo-SP Site: www.itarare.com.br/silas.htm Blogue: www.portas-lapsos.zip,net (Um dos dez melhores do UOL em 2008) Teórico da Educação, Jornalista Comunitário, Conselheiro em Direitos Humanos (SP), autor do livro Campo de Trigo Com Corvos, Contos, Editora Design, Finalista do Prêmio Telecom Portugal, a venda no site: www.livrariacultura.com.br
Escrito por zanzes às 10h29
[]
[envie esta mensagem]
[link]

Dia da Consciência Pesada é todo Dia E Dia da Consciência Negra?
Escrito por zanzes às 12h14
[]
[envie esta mensagem]
[link]

O que todo mundo precisa saber: FHC Tem Inveja do Lula Porque... 01)-FHC o “Pai da Fome” – o “sucesso” do amoral e inumano Plano Real (irreal) “gerou” mais de 20 milhões de desempregados diretos e indiretos – tem inveja do LULA LIGHT porque o Lula teve as mãos limpas para ser eleito, usando apenas a sua magna história de vida, o seu Plano de Vida. Depois do escroto do FHC ser re-eleito (por conta do mensalão tucano-neoliberal do DEMO e do apagão moral do PSDB et caterva) FHC que trocara nossa moeda pau a pau pelo dólar, passou a não valer mais nada. Se você não sacou isso antes, ou não reclamou nada, feito uma anta ficou por isso mesmo, então vc não é politizado o suficiente por querer criticar agora... já pensou? 02)-FHC tem inveja do Lula porque sendo uma espécie de ególatra PHDeus acadêmico, poliglota, seu partido via-Pinóquio de Chuchu, Serra et caterva – não sabe administrar nem a Febem (O Estado de SP refém do PCC) quando Lula vem dando um show, é o Cara... Já pensou? 03)-FHC tem inveja do Lula porque o Lula extirpou o câncer do DEMO, ex-PFL, ex-PDS, Ex-ARENA e ele teve que fazer acordo com máfias e quadrilhas com ACM, Renan, Juiz Lalau, Collor, Maluf e tb teve como aliado Sarney e toda a corja que ainda mama nos podres poderes e mandam no estado mais corrupto do Brasil, Samparaguai... Já pensou? 04)-O FHC tem inveja do LULA Light porque o Lula tido como sem estudos, vem dando um show. Pegou o Brazyl S/A em décimo da Era Tucana e vai entregar o Brasil entre as Cinco maiores Potências do Mundo. Já pensou? 05)-FHC tem inveja do Lula porque o Lula sem apoio da corja da Veja (Os Civitas foram expulsos da Argentina ou seriam presos), da FOLHA (que vendeu assinatura ad-perpétua e depois refugou), do Estadão (que financiou a Canalha de 64), da rede Globo (que mandou tocar fogo na concorrente e cresceu durante a corrupção que financiou a “Redentora”), e o Lula com tudo contra, com a mídia amoral falando mentiras e ainda assim tem 80% de aprovação. Já pensou de que lado vc está? 06)-FHC tem medo do Lula porque enquanto ele fazia campanha para presidente, e tinha uma jornalista Miriam embuchada (que a imprensa não divulgou) o Lula é fiel à Dona Marisa e casado de papel passado com a nova república de inclusão social, o maior presidente que o Brasil já teve. 07)-FHC tem inveja do Lula porque o Lula vai lá fora vender o Brasil (trazer grana) – segundo a FIESP o Lula é o maior garoto-propaganda que o Brasil já teve – e o FHC só ia pensando nele mesmo, pegar títulos de honoris qualquer-coisa e medalhinhas. O Lula vai para ser aplaudido como o melhor político do mundo, premiado pela ONU, elogiado pelo OBAMA. Só não vê quem é despolitizado ou não conhece a historicidade do Brasil e do Lula brasileiríssimo... O melhor cidadão do Brasil de todos os tempos... 08)-FHC tem inveja do LULA porque o estado de SP está falido (as empresas estão indo embora daqui), só cresce 2% por cento, enquanto o Brasil em geral fora do eixo-sp cresce mais de cinco por cento. Vc sabia disso ou vc acredita na mídia Plim Plim? 09)-FHC tem inveja do LULA porque o Lula fez o maior projeto de inclusão social do mundo (foi até candidato ao Premio Nobel da Paz por isso), enquanto ele promoveu as privatizações-roubos, com a “máfia russa” das privatizações paulista-paulistana promovida pelo capo Pinóquio de Chuchu – via FIESP/OAB - incompetente e corrupto, mas blindado pela mídia que ganhou alta grana via agiotas do capital estrangeiro nas privatizações. A grana? Ninguém sabe e ninguém viu.... 10)-FHC tem inveja do Lula porque o Lula é muito melhor do que ele para o Brasil. O Lula mudou as práticas, a moeda, as políticas públicas de inclusão, enquanto FHC promoveu a quadrilhização das praças de pedágio de SP em mãos de testas de ferro de amigos do alheio e com guarida financeira para políticos do próprio partido. Ou seja, privatizaram para eles mesmos. Já pensou? Vc votou em quem mesmo? Ainda acredita no vampiro Serra ou no banana do Aécio. Pois é. O medo do PT cria monstros. -0- Delmiro T. Latz delmirot@bol.com.br
Escrito por zanzes às 11h50
[]
[envie esta mensagem]
[link]

Bucólica. Café coado na hora: . Cheiro que não escapa . De outros cheiros da terra. . . Érica Antunes
Escrito por zanzes às 11h44
[]
[envie esta mensagem]
[link]

|